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por Widson Porto Reis mail
em 23/01/04

As mensagens subliminares vão a julgamento - o caso Judas Priest

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James Vance and Ray Belknap eram dois adolescentes problemáticos, ou melhor, mais problemáticos que a média. Os dois tinham dificuldades de adaptação, eram abusivos e violentos em seus relacionamentos, socialmente alienados, impulsivos e por vezes depressivos. Os dois vinham de lares desfeitos e um deles já tinha apontado uma arma para a cabeça da mãe durante uma discussão. Os dois possuíam histórico de uso de drogas, furtos e brigas na escola. Em 1985, depois de beberem uma caixa de cervejas, fumarem maconha e ouvirem muito rock & roll, os dois tentaram o suicídio com um tiro na cabeça, um deles pela segunda vez. Belknap morreu na hora enquanto Vance ainda viveu por mais três anos até morrer de uma overdose de medicamentos.

Quem você apontaria como culpados num episódio trágico destes? Os pais ausentes? As drogas? Bebidas? A falta de valores familiares e/ou religiosos? Genes ruins? Pois os pais dos garotos decidiram que a culpa era da banda de rock Judas Priest e pediram uma indenização de 6,2 milhões de dólares. Alegaram que seus filhos foram levados a cometer suicídio por uma mensagem subliminar escondida na música "Better By You, Better Than Me", de 1978, que dizia "Do It" (Faça). Isso mesmo. A palavra ""faça" sozinha e praticamente inaudível teria sido a responsável por fazer dois jovens delinqüentes, embriagados e drogados a se matarem. Por absurdo que possa parecer o caso foi a julgamento.

Ainda durante o pré-julgamento, ninguém menos que Wilson Key, autor do livro "Subliminal Persuasion", o homem que sozinho reinventou o mito das mensagens subliminares, foi chamado para depor como expert no assunto. Diz muito sobre a credibilidade de Key, famoso por enxergar imagens sexuais em biscoitos, pratos de frutos do mar e copos com gelo, o fato dele ter sido dispensado logo depois do pré-julgamento. Outro pseudocientista, Jonh Oates, criador dos "Discursos Reversos", tentou ganhar alguma projeção com o caso oferecendo seus préstimos aos advogados. Ao ouvir a música do grupo ao contrário Oates encontrou outras 72 expressões de conteúdo maligno (temos que tirar o chapéu para a criatividade deste homem). Também foi recusado. Os promotores precisavam de alguém respeitável e chamaram Howard Shevrin, pesquisador de credenciais impecáveis e mais de 20 anos de pesquisas no tema. Shevrin expôs sua convicção de que estímulos subliminares são especialmente poderosos porque passam despercebidos pela porta de entrada da mente consciente fazendo com que a pessoa pense que são originários de sua própria vontade. Segundo o pesquisador Timothy E. Moore, que esteve presente ao julgamento, os argumentos de Shevrin foram muito convincentes e causaram grande impressão no juiz.

Do lado da defesa estavam o já citado Timothy E. Moore, Anthony Pratkanis, professor de psicologia social da Universidade da Califórnia, e Don Read, psicólogo cognitivo da Universidade de Lethbridge. Os três se concentraram em apontar as incoerências e falhas de metodologia dos numerosos trabalhos sobre percepção subliminar, vários deles usados por Shevrin. Depois apresentaram diversos trabalhos feitos sobre fitas de auto-ajuda com mensagens subliminares e discos tocados ao contrário e mostraram como está provado que estas mensagens não tem nenhum efeito sob quem as ouve.

No veredicto o juiz concluiu que a mensagem "Do It" realmente estava presente na música, mas que nenhuma evidência havia sido apresentada de que era outra coisa além de uma mistura não intencional de sons, nem de que estes sons pudessem ser subliminarmente efetivos. Quanto a isto o juiz proferiu: "As pesquisas científicas apresentadas não estabelecem que estímulos subliminares, mesmo que percebidos, podem precipitar condutas desta magnitude (...) a evidência mais forte apresentada neste tribunal não mostrou outros efeitos comportamentais além de ansiedade, estresse ou tensão". O grupo foi absolvido e a indenização negada.

As observações de Timothy Moore sobre todo o caso foram transcritos em um ótimo artigo da revista "Skeptical Inquirer". Para ouvir o "Do It" que deu origem a toda a história visite o link do pesquisador Don Read (aproveite, é bem difícil de encontrar, mas se você ainda acredita no poder das mensagens subliminares, certifique-se de estar num bom dia...).

tirinha Nike
Humor: o homem está sentado em frente ao botão de lançamento de um artefato nuclear; a legenda diz "Em retrospecto, a Nike nunca deveria ter permitido suas propagandas no Departamento de Defesa Americano".

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