Projeto Ockham

Rocks of Ages Rocks of Ages (Stephen Jay Gould)
Ciência e Religião estão em guerra. Religiosos preparam suas armas retóricas e disparam citações bíblicas interpretadas ao pé da letra para impor o dogmatismo sobre a liberdade de pensamento. Do lado oposto cientistas e ateístas abrem a caixa de ferramentas do método científico e invadem o território religioso tentando provar que ou Deus não existe ou que não precisamos Dele.
Este panorama não existe. Não segundo o paleontólogo Stephen Jay Gould que, ao lado de Carl Sagan, foi um dos mais respeitados divulgadores da ciência que o mundo já teve, autor de mais de 15 livros.
Gould defende a tese de que ciência e religião se constituem em "Magistérios Não Interferentes" e cunha uma sigla para isso, os MNI. O magistério da ciência, segundo Gould, é o conhecimento factual do mundo natural enquanto o magistério da religião trata dos desígnios do homem, sua conduta moral e ética. A partir daí, Gould tenta demonstrar que o único conflito possível entre ciência e religião se dá quando uma tenta invadir o território da outra e mostra que isso acontece menos freqüentemente do que se pensa, sendo que quando acontece não é exclusividade da religião; a ciência, conforme Gould afirma, também já fez movimentos ilegais dentro do magistério da religião ao extrapolar os fatos da natureza em princípios morais e éticos.
Para provar que ciência e religião não se excluem nem disputam o mesmo pedaço da verdade, Gould mostra que ao longo da história muitos religiosos foram ardorosos e influentes defensores do método científico e que por outro lado muitos cientistas permitiram que o pensamento religioso interviesse em sua investigação científica. Neste aspecto o ponto pitoresco do livro acontece quando Gould revela a correspondência entre Newton e o reverendo Thomas Burnet na qual, ironicamente, é Newton quem defende a criação da Terra em seis dias, idéia que o eclesiástico rebate com argumentos verdadeiramente científicos. Gould prossegue então procurando as causas históricas da batalha entre ciência e religião e neste processo desconstrói vários mitos modernos; entre eles o de que a Igreja Católica se opunha à idéia de Colombo chegar às Índias por acreditar que a Terra fosse plana, o que é ensinado até hoje em algumas escolas.
Gould tem credenciais para escrever sobre o tema; participou ativamente de uma batalha real, esta judicial em 1987, entre criacionistas e evolucionistas, em que líderes religiosos exigiam tempos iguais nas escolas públicas americanas para o ensino do criacionismo e do darwinismo. Ao narrar a história como participante ativo dela (o que constitui os melhores momentos do livro), é bastante claro quando diz que o criacionismo é um fenômeno social puramente americano, defendido por uma minoria de seitas protestantes radicais, e não pela instituição oficial da Igreja. Na verdade, segundo Gould, a grande maioria do clero profissional esteve do mesmo lado dos cientistas no julgamento da questão evolucionista.
O livro tem alguns problemas como o fato de não abordar a mesma questão para religiões mais fundamentalistas ou tradicionalistas como o islamismo ou as religiões orientais. A própria tese dos MNI pode ser criticada, especialmente pelos religiosos, que para se manter restritos em seu magistério deveriam abdicar da noção de milagre como uma suspensão das leis naturais pela vontade de Deus (não é fácil concordar com Gould quando ele diz que esta visão particular de milagre é restrita a um grupo pequeno de religiosos). Assim mesmo, este livro de leitura simples e agradável é indicado a todos aqueles que queiram ir além de uma visão simplista do mundo e queiram pensar a relação entre ciência e religião seriamente, muito além dos estereótipos fáceis sobre ambas.
Publicado em português pela Editora Rocco, com o título "Pilares do Tempo - Ciência e Religião na Plenitude da Vida".
Widson Porto Reis

Voltar à lista de Livros
Cadastre seu email para receber nosso boletim:
Pipoca com Ciência

Dragão da Garagem