Projeto Ockham

The Men Who Stare at Goats (Jon Ronson)
Para quem se diverte com aquelas comédias americanas que satirizam a vida militar ou a burocracia governamental, como MASH, este livro é uma prova de que a vida real pode ser ainda mais engraçada que a ficção. A descrição que vem na capa do livro já dá a dica - "Esta história é sobre o que aconteceu quando um pequeno grupo de homens - em altas posições nas Forças Armadas, governo e comunidade de inteligência americanos - começou a acreditar em coisas muito estranhas".

O jornalista Jon Ronson rastreou as aventuras desse grupo, que iniciou suas atividades polêmicas na década de 70, em meio ao auge do movimento "paz e amor" nos Estados Unidos, mas cujas idéias sobrevivem até hoje e são usadas, por incrível que pareça, até na atual guerra contra o terrorismo. Essas atividades eram uma psicodélica mistura de pseudociência, inspirações Jedi (sim, daquela série de filmes), misticismo oriental, filosofia New Age e pura e simples incompetência, na tentativa de criar "super-soldados".

Nada descreve melhor o livro que uma série de cenas representativas, como:

- um oficial-general, chefe da inteligência do Exército Americano, tentando repetidamente andar através da parede de seu gabinete - o mesmo general também tentou aprender a levitar, afirmava poder dissipar nuvens com o poder da mente e tentou convencer um colega general da utilidade de suas idéias mostrando-lhe uma colher entortada no meio de um jantar de gala... - obviamente sem sucesso em todos os casos;

- a utilização bastante criativa de músicas como forma de influenciar o inimigo, incluindo tocar repetidamente um irritante tema de desenho animado (Barney, the Purple Dinossaur) para "torturar" prisioneiros iraquianos e "My Heart Will Go On", de Celine Dion, nas rádios ocupadas na cidade de Bagdá, como forma de convencer a população iraquiana de que os EUA não eram o Grande Satã;

- a busca por um "instrutor" que fosse capaz de matar bodes apenas com o poder da mente (daí o título do livro), para treinar soldados das forças especiais;

- o uso de médiuns para localizar o ditador panamenho Manuel Noriega. O resultado? Um médium em transe berrando: "Pergunte a Kristy McNichol!". Esclarecimento: Kristy McNichol era uma atriz de sitcoms, que obviamente não tinha a menor idéia de onde estava Noriega;

No final das contas, este é um típico caso do "seria cômico, se não fosse trágico". O livro vale como exemplo de até onde a crença cega em pseudociências e no paranormal pode chegar, sendo uma leitura leve e rápida, mas não pode ser considerado um trabalho investigativo profundo. Talvez pela dificuldade natural em se obter informações nessa área, fica a nítida impressão de que apenas a superfície dessa história foi exposta.

Alexandre Taschetto de Castro

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