Projeto Ockham
A brincadeira do copo Conversando com os Mortos - A História da "Brincadeira do Copo"

por Widson Porto Reis mail
em 24/06/05

O nascimento do espiritualismo

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O espiritualismo como o conhecemos hoje é uma invenção americana. Foi inventado no dia 31 de março de 1848, quando as adolescentes Margaretta e Catherine Fox descobriram que podiam se comunicar com os mortos, ou que, pelo menos, podiam convencer outras pessoas disto.

A família Fox vivia em um grande casarão na área rural do condado de Hydesville, NY. Um casarão grande, antigo e cheio de histórias de assombrações. Desde que se mudaram, os Fox vinham sendo incomodados todas as noites por misteriosos barulhos de pancadas nas paredes, estalos e passos em quartos onde não havia ninguém. Na noite do dia 31 de março, os barulhos recomeçaram e John Fox, o chefe da família, levantou-se mais uma vez em seu ritual noturno para vasculhar portas, janelas, frestas e saliências em busca da fonte dos barulhos. A certa altura, sua filha mais nova, Kate, que o acompanhava na vigília, percebeu que sempre que batia palmas um certo número de vezes, um igual número de estalos era ouvido. Kate dizia "faça como eu faço, Mr. Splitfoot", e os barulhos ecoavam pela casa em resposta aos seus. Desconfiada de que alguém pudesse estar lhes pregando um trote de primeiro de abril, a Sra. Fox decidiu perguntar em voz alta a idade de suas filhas. Para seu espanto, os estalos se seguiram suficientemente espaçados para que ela pudesse distinguir uma a uma a idade se suas filhas, incluindo uma que havia morrido muito cedo. Convencida de que não se tratava de uma brincadeira, a Sra. Fox fez uma série de perguntas sobre quem estava por trás dos misteriosos sons: "É um ser humano que está fazendo estes barulhos?" (nenhuma resposta). "É um espírito?" (um estalo foi ouvido) e assim por diante, até concluir que a ruidosa assombração era o espírito de um jovem caixero viajante que havia sido roubado, assassinado e enterrado no porão daquela casa. Escavações posteriores no porão revelaram um osso, aparentemente humano, e alguns pedaços de roupa, o que causou uma grande comoção. (Em 1904, 56 anos depois, uma ossada completa seria encontrada no porão. A história completa pode ser lida aqui. Já os depoimentos do Sr. e da Sra. Fox sobre aquela noite em que tudo começou estão transcritos aqui).

A notícia de que as irmãs Fox podiam se comunicar com os mortos se espalhou como fogo em mato seco. Pessoas vinham aos milhares de todas as partes do país para presenciar o fenômeno. A irmã mais velha, Leah Fox Fish, que havia sido recentemente abandonada pelo marido sem um tostão no bolso, decidiu transformar em negócio a habilidade das irmãs e nomeou-se empresária das meninas. De Hydesville para o mundo, logo as Fox estavam realizando apresentações dos dois lados do Atlântico.

Com o estrondoso sucesso das irmãs Fox, não demorou muito para que outras pessoas descobrissem que também podiam se comunicar com os mortos e começassem a faturar por suas habilidades; até mesmo Leah, a empresária das irmãs, também começou a receber os espíritos, afirmando que o talento para se comunicar com os mortos era um dom familiar. A época era propícia para o negócio - o que os profissionais chamariam de uma janela de oportunidade - afinal, com mais de meio milhão de mortos da guerra civil americana (1861-1865) todo mundo tinha um parente ou amigo com quem gostaria de entrar em contato. Logo o espiritualismo tornou-se uma febre mundial, algo como os reality shows e programas de makeover modernos.

As pessoas com poderes de servir como meio de comunicação com o "outro lado" passaram a ser chamadas de "médiuns" (que siginifica "meio") e as sessões mediúnicas (sittings) passaram a ser shows muito concorridos. E muito impressionantes também. Os participantes se sentavam com as mãos dadas, em torno de uma mesa, em uma sala parcamente iluminada ("para não distrair", explicavam os médiuns), decorada por velas e símbolos ocultistas. Nos primeiros anos do fenômeno, uma mesa trepidante era suficiente para sinalizar a presença do espírito, mas com o passar do tempo (e o acirramento da concorrência) tornaram-se comuns descrições de objetos sendo atirados longe, aparições fantasmagóricas, instrumentos musicais que tocavam sozinhos, materializações e vozes misteriosas (como no final do filme "Os Outros"). Foi também nesta época de efervescência espiritual que surgiram as primeiras fotografias de fantasmas (o que foi uma notável coincidência com a invenção dos negativos de placas de vidro que permitiam dupla exposição; um efeito especial inexistente até então).

Declínio e queda do espiritualismo
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