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por Widson Porto Reis mail
em 30/03/03

O método científico e as pseudociências ou "O dragão na minha garagem"

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Um amigo lhe diz que descobriu um dragão na garagem da casa dele.

"Uau, isso é incrível! Vamos lá vê-lo!" você diz entusiasmado, já pensando nas manchetes dos jornais.
"Bem... isso não vai ser possível porque ele é invisível."
"Você fala sério?!", mas seu momentâneo desapontamento é logo substítuido por uma excitação ainda maior, afinal você sabe que um dragão invisível é ainda mais incrível que um dragão qualquer."A gente joga tinta nele então. E depois tiramos umas fotos."
"Ahhh? Tinta? Bom... isso também não vai dar, pois este dragão é incorpóreo."
"Incorpóreo?!!"
"Sim, incorpóreo, tipo um fantasma ou um ectoplasma."
"Mas este dragão solta fogo? Pelo menos isso?"
"Sim, soltar fogo ele solta! Se bem que o fogo é invisível também."
"Tá, não tem problema, a gente usa um visor de infravermelho pra ver este fogo invisível."
"Mas o fogo deste dragão é um fogo frio, que está à temperatura ambiente, não vai dar pra sentir..."
"!!"

Você propõe mais uma dúzia de maneiras de detectar o dragão e seu amigo refuta todas elas dizendo que com este dragão não vai funcionar. Você começa a perder a paciência e, além de um pouco preocupado com a sanidade do seu amigo, fica imaginando qual a diferença entre um dragão que não pode ser detectado de nenhuma maneira e dragão nenhum:"Então como você sabe que há realmente um dragão lá?!"

Seu amigo responde a esta pergunta com explicações confusas que misturam capacidade de se comunicar telepaticamente com o dragão, técnicas ancestrais milenares de detecção de dragões (provavelmente orientais), instrumentos exóticos capazes de medir a "energia" de dragões, uso da intuição, revelação em sonhos, etc, e encara o seu ceticismo como má-vontade em crer neste maravilhoso dragão-invisível-incorpóreo-que-cospe-fogo-frio.

Esta história é uma adaptação livre de um trecho do livro "O Mundo Assombrado pelos Demônios" de Carl Sagan e ilustra o típico pensamento pseudocientífico. De fato você não precisa ir muito mais longe para, usando a mesma analogia, imaginar pessoas que preveêm o futuro inspirados por dragões indetectáveis, ou que dizem curar usando a energia destes seres. Estas pessoas provavelmente acusarão os cientistas que não querem crer na existência de seus dragões de estreiteza de pensamento ou dirão que eles se negam a encarar as evidências porque temem que elas abalem sua forma ortodoxa de pensar. Muitos torcerão um pouquinho a história e se compararão a Galileo e a Colombo que foram perseguidos por desafiarem o pensamento científico estabelecido: "Riram de Galileo e de Colombo e riem de nós", dirão (ao que Carl Sagan acrescentaria: "riram do Bozo também, e daí?").

Claro, alguns cientistas tentam assim mesmo detectar este dragão, afinal descobrir que dragões podem estar escondidos em garagens pelo mundo e que podem ser usados para curar e prever o futuro é uma descoberta extraordinária demais para ser ignorada. Mas mais importante do que isso: não é só porque a ciência não é capaz de detectar o dragão que ele não existe. Germes, partículas atômicas e subatômicas, quasares, variações no espaço-tempo - pode-se citar inúmeros exemplos de fenômenos que num determinado momento da história não foram ou não poderiam ser detectados pelas técnicas e instrumentos disponíveis mas que não deixaram de existir por isso. Investigar portanto é preciso.

Mas este dragão tem um problema de timidez. Ele só aparece para algumas pessoas "escolhidas" e nunca diante de câmeras. Todas as evidências de sua existência ou são contestáveis ou não vêm de fontes confiáveis ou podem ser explicadas por fatos já bem conhecidos pela ciência; mágicos conseguem reproduzir tudo o que as pessoas dizem fazer usando a energia dos dragões. Por fim as previsões feitas por pessoas "guiadas" pelos dragões são menos acertadas na média do que as previsões feitas por profissionais e o número de curas feitas pela tal energia do dragão é equivalente ao das curas espontâneas ou por placebo.

A conclusão é que por mais que a ciência investigue o fenômeno não há evidências, ordinárias nem extraordinárias, obtidas através de um rigoroso método científico que suportem a existência do Dragão Invisível. Por isso, para a ciência pelo menos, ele é finalmente esquecido.

Não pense que dragões indetectáveis são exclusividade dos pseudocientistas. A ciência já teve que lidar com seus "dragões". Até o final do século XIX os físicos acreditavam na existência de uma substância chamada éter que preencheria o vácuo e que seria o meio no qual se propagariam a luz e as ondas gravitacionais, muito embora ninguém ainda o tivesse detectado. Este éter deveria ser de tal natureza que não interferisse no movimento da Terra através dele e que permanecesse inalterado e imóvel ao ser atravessado pela luz. Isso o tornava por definição extremamente dificil de ser detectado. Em 1881 Michelson e Morley idealizaram uma cuidadosa, e hoje famosa, experiência para tentar "capturar" o éter, porém nada foi observado. Alguns imaginaram falhas na experiência, mas outros começaram a desconfiar que não haveria éter nenhum para ser detectado. O éter continuou a ser perseguido utilizando-se técnicas mais avançadas e instrumentos mais precisos, sempre com os mesmos resultados, até o ano de 1960, quando foi definitivamente descartado.

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Dragão da Garagem