Projeto Ockham
Lenda Lendas urbanas

por Erick Simões da Camara e Silva mail
em 19/06/02

O que são lendas urbanas?

Fórum Enviar artigo

A primeira teoria assevera que as lendas urbanas sempre são falsas, ou seja, sempre são relatos fantasiosos, que até poderiam ser verdade, mas que na realidade nunca ocorreram. São mentiras contadas como se fossem verdades, que geram boatos, histórias fantasiosas que correm mundo afora.

Conforme a segunda teoria, a prova de veracidade não desqualifica a história como lenda urbana. Não define-se lenda urbana como uma história falsa e ponto final. Ela é definida como uma história que é tida como autêntica, apesar de ausência de evidência comprobatória ou prova cabal. Independente da história ser verdadeira ou não, o que importa é que continue a ser transmitida por pessoas que realmente não conhecem os fatos. Esta teoria entende que os requisitos fundamentais para caracterizar determinada história como lenda urbana são a forma como a história surgiu e a forma como ocorreu a transmissão. Desta forma o mais importante é que os fatos sejam tratados sempre como se fossem verdades, embora não haja nenhuma evidência que sirva de prova, bem como não haja uma forma de identificar o autor dos fatos.

Entendemos que a última teoria citada corresponde mais acertadamente à realidade das lendas urbanas. Classificar determinada história como lenda urbana levando em consideração a veracidade ou não descaracterizaria boa parte das lendas urbanas atualmente existentes. Podemos exemplificar com a já conhecida lenda urbana de algúem que colocava agulhas nas poltronas de cinemas (existem variantes em ônibus e outros lugares públicos) para que as pessoas fossem contaminadas. Independente da discussão de se as agulhas poderiam ou não contaminar algúem, é realmente impossível saber se alguém não tentou realizar esta ação e depois foi transmitida a outros, como uma lenda, ou se o fato foi apenas inventado.

As lendas urbanas são histórias populares que alegam ser verdadeiras, sendo transmitidas de pessoa a pessoa através da tradição oral ou escrita (por exemplo, fac-símile ou e-mail). Estas histórias incluem relatos de situações atípicas, de eventos macabros ou engraçados, sendo que o fato sempre aconteceu com outra pessoa. Com respeito ao protagonista dos fatos narrados, quando você tenta verificar, a resposta habitual é que eles aconteceram a um amigo de um amigo.

Lendas urbanas são uma forma de folclore, uma vez que este corresponde ao conjunto das convicções e tradições de um povo, expressas em suas lendas. Assim, um modo de diferenciar entre lendas urbanas e outros tipos de narrativas, como por exemplo a ficção popular está no exame de suas origens e como eles são disseminados. Lendas tendem a surgir espontaneamente, fora de canais institucionais de comunicação e raramente têm origem em um único ponto. Além disso, espalham-se principalmente de indivíduo para indivíduo, por comunicação interpessoal, e só em casos atípicos por meios de comunicação de massas ou outros meios institucionais.

Do entendimento das lendas urbanas como uma forma de folclore torna-se mais claro perceber o porquê da existência das lendas urbanas. Seres humanos sempre ficaram encantados em contar e ouvir histórias, espalhar rumores, assustar um ao outro com advertências medonhas. Esta forma de comunicação atende à finalidade de manter a cultura.

Como as lendas urbanas acabam sendo repetidas por muitas pessoas diferentes em muitos lugares diferentes, as histórias tendem a mudar com o passar do tempo. Conseqüentemente, duas versões não são exatamente iguais, variando com o narrador.

Ao invés de provas, o narrador da lenda urbana confia na narração e em fontes supostamente fidedignas para impulsionar sua credibilidade. Às vezes, mas não sempre, há uma mensagem moral implícita na história (por exemplo, tenha cuidado, ou a mesma coisa poderia acontecer a você!).

Vejamos a seguinte história: certa noite, um motorista dá carona a uma moça numa estrada deserta. Enquanto seguem caminho, ela indica onde fica a casa de seus pais. Ao chegarem lá, o motorista pára o carro, vira-se para a moça... e percebe que ela desapareceu. Desnorteado com aquilo, bate à porta e é atendido por um casal idoso, a quem começa a narrar o que aconteceu. De repente ele vê na parede o retrato da moça que trouxera. O casal, mais calmo do que ele, explica que é a filha, morta há alguns anos, e que ele não é o primeiro a quem aquilo acontece.

Essa história apresenta as características fundamentais acima explicitadas, sendo por conseguinte classificada como uma lenda urbana. Durante a transmissão desta história, o protagonista irá assumir as mais variadas personalidades, podendo ser o irmão mais velho do meu cunhado, ou um primo de um amigo meu do escritório, ou ainda o marido de uma vizinha da minha avó. Esta é uma das lendas urbanas analisadas por Jan Harold Brunvand, da Universidade de Utah, em "The Vanishing Hitchhiker: American Urban Legends and Their Meanings". Além deste livro, este autor escreveu outros tratando também sobre lendas urbanas, sendo uma boa fonte de consultas.

A propagação dessas lendas ganhou um forte aliado no final do século XX: a rede mundial de computadores. Com o surgimento dos e-mails, quase todos já receberam, repassados várias e várias vezes, assuntos dos mais variados que tratam sobre correntes, casos aterrorizantes, entre outros. É a tecnologia contribuindo para a divulgação das lendas urbanas.

Era inevitável que a Internet, com a globalização, o imediatismo e o barateamento na troca de informações entre as pessoas, permitisse que culturas diversas pudessem se comunicar sem as tradicionais barreiras que existiam até então. Assim, tornou-se um possante veículo primário para a expansão do folclore contemporâneo. Foram transcritas lendas urbanas incontáveis em textos de e-mail e novas lendas urbanas foram inventadas. Elas vieram a ser conhecidos como netlore (folclore na net).

O problema é que, como essas histórias são bem contadas, a maioria das pessoas que as recebem em e-mails não verificam sua veracidade e acabam reenviando para os amigos. Aliás, muitas vezes no próprio texto da mensagem é pedido que seja reenviado para todas as pessoas que se conhece, iniciando, então, uma corrente. O nome hoax é usado genericamente para trotes ou mensagens falsas e empregado com freqüência quando a mensagem informa sobre vírus que não existem. A divulgação dessas histórias aumenta rapidamente, em progressão geométrica, entupindo a caixa postal de milhares de usuários e congestionando a rede.

Quando as lendas passam a ser transmitidas por outros meios que não a tradição oral tendem a perder algumas das qualidades narrativas, tornando-se mais secas, tendo muitas vezes a noção de advertência, em lugar dos tradicionais contos. A possibilidade de transmissão do texto original, intacto, gera também um menor número de alterações do texto originalmente criado.

O caráter urbano dessas lendas refletem uma nova realidade. As velhas histórias de sacipererê ou das bruxas, de caráter mais provincial, dão lugar a uma temática mais ligada à cidade, lugar onde a maioria da população mundial vive atualmente, fazendo com que esse grandes centros criem suas próprias lendas.

Contudo, não devemos utilizar a expressão em sua forma literal. É verdade que estas lendas poderiam ser melhor caracterizadas como lendas contemporâneas, uma vez que nem todas as lendas se passam em grandes centros urbanos. Contudo, a utilização da nomenclatura lendas urbanas veio para criar o contraponto às histórias surgidas nos meios tradicionais, principalmente o meio rural.

Mecanismo de ação
Cadastre seu email para receber nosso boletim:
Pipoca com Ciência

Dragão da Garagem