Projeto Ockham

N° 12 • 25 Set 05

I Conferência Ibero-Americana Sobre Pensamento Crítico
Aconteceu nos dias 17 e 18 de setembro, em Buenos Aires, a I Conferência Ibero Americana sobre Pensamento Crítico, com o tema: "Impacto Social do Dogmatismo e do Engano". Organizada pela revista Pensar, a conferência reuniu céticos e pensadores liberais da América Latina, da Espanha e dos EUA. O Brasil também esteve lá, representado por Widson Porto Reis, do Projeto Ockham, e Luiz Gutman, único representante do CSICOP no Brasil e autor do extinto Opção Racional.

A abertura oficial deveria ter sido feita por Paul Kurtz, presidente do Center for Inquiry e um dos fundadores do CSICOP, mas por razões médicas Kurtz não pôde comparecer, fazendo sua apresentação em um vídeo gravado. Em seguida Alejandro Borgo, editor da revista Pensar e coordenador do evento, deu início aos trabalhos.

Ao longo dos dois dias seguintes, houve algumas apresentações memoráveis. Joe Nickell (foto), renomado investigador do paranormal e dono de uma personalidade cativante, apresentou o trabalho "Investigando Milagres", em que discorreu sobre suas investigações de santas e quadros que choram, a maioria delas incluídas em seu livro: "Looking for a Miracle: Weeping Icons, Relics, Stigmata, Visions & Healing Cures". Nickell mencionou, por exemplo, as investigações que fez a respeito do "Milagre do Sangue" que brota da imagem de São Genaro na Itália (busque no blog CienCet), para a qual desenvolveu uma mistura de azeite e cera de abelhas que se liquefaz quando a temperatura ambiente atinge um certo valor, como quando velas são acesas ou multidões se aglomeram em torno da imagem.

Richard Branham, com o trabalho "Seria Deus um Piadista Cósmico", basicamente mostrou os argumentos físicos e geológicos que asseguram que a Terra é um pouco mais velha do que diz a Bíblia e especulou sobre os motivos que levariam um criador a criar a Terra há seis mil anos atrás com a aparência de 4,5 bilhões de anos, como defendem os criacionistas.

Luiz Gamez
(na foto ao lado de Juan De Genaro, à direita, do Argentina Skeptics) falou sobre as teorias conspiratórias e começou sua apresentação de maneira hilária, satirizando os conspiracionistas, afirmando que o CSICOP na verdade é um grupo que tenta dominar o mundo.

Ernesto Gil Deza, oncólogo, provavelmente realizou a melhor apresentação de todo o congresso - "Pseudociência e Medicina: quando a ignorância custa vidas" - arrancando gargalhadas com comentários ferinos e inteligentíssimos sobre a própria medicina. Segundo Deza, a ciência não é isenta (talvez fosse melhor afirmar que os cientistas não são isentos) e somente 10% dos médicos prescrevem tratamentos baseados em razões realmente científicas, em vez de se deixar levar pelos modismos dominantes.

Enrique Márquez (foto), ilusionista e investigador de fenômenos paranormais - um James Randi argentino, guardadas as proporções - apresentou o trabalho "Curanderismo: o pensamento mágico-religioso em ação". Marquez deixou que as chocantes imagens dos vídeos sobre cirurgias espirituais exibidas na televisão argentina falassem por si próprias. Um dos vídeos exibidos por Marquez foi o do Cacique Raoni sendo recebido pelo presidente Sarney, depois de supostamente curar o biólogo Augusto Ruschi com um ritual mágico. Ruschi havia sido envenado por um sapo e veio a falecer meses depois do ritual.

Celso Aldao discorreu sobre o método científico e sobre por que pseudociência é uma coisa e ciência é outra. O que poderia ter sido uma apresentação sem surpresas, já que o público era composto de céticos de carteirinha que já conheciam bem o tema, acabou se revelando genial graças ao talento de Aldao em comunicar de forma clara e agradável.

Alejandro Borgo
(foto) fez uma apresentação autobiográfica, quase confessional, mostrando como abandonou seus estudos de parapsicologia depois de anos tentando reproduzir os efeitos psi sem sucesso. Borgo foi brilhante mostrando como se pode aplicar o ceticismo e o método científico ao estudo dos fenômenos paranormais, e foi responsável pelo momento mais descontraído da conferência ao narrar sua experiência em testar um homem que dizia ser capaz de excitar mulheres à distância...

Diego Zuñiga
(foto) e Pablo Capanna encerraram a conferência de forma genial falando sobre o papel da imprensa na difusão da pseudociência. De quebra, arrancaram gragalhadas da platéia, tanto com as manchetes equivocadas da imprensa espanhola como com o sensacionalismo barato dos jornais chilenos, como na impagável foto de uma equipe do exército armada até os dentes em meio a selva, ao lado da manchete "Chupacabras cercado".

Já a apresentação de Widson Porto Reis - "A Penetração das Pseudociências nas Universidades", misto de denúncia e desabafo sobre o triste cenário universitário brasileiro - deixou a certeza de que a situação no Brasil é muito mais séria do que se pensa e sem igual na América.

La Nave de Los Locos
Perspectivas
Region
Argenina Skeptics

As fotografias desta matéria foram gentilmente cedidas por Juan De Genaro, do Argentina Skeptics.

Como derrotar furacões?
A pergunta não é nova, mas com dois gigantescos furacões a atingir a costa americana em um período de tempo tão curto e com a temporada de furacões apenas começando, os esforços da ciência para dominar a natureza se tornam mais atuais que nunca.

Já nos anos 60, os cientistas tentavam domar a fúria dos furacões jogando iodeto de prata sobre eles. A experiência foi feita em 4 furacões mas ninguém pôde afirmar se a diminuição da força dos ventos foi realmente causada pelo método. Afinal, até mesmo o Rita perdeu sua força naturalmente pouco antes de investir sobre a costa. Assim, sem outras evidências, o iodeto de prata foi abandonado. Em seu lugar os cientistas já pensaram em lançar esponjas sobre o mar, rebocar icebergs para resfriar o oceano (a temperatura da água é a força motriz dos furacões) e até explodir uma bomba atômica nas imediações, uma solução mais hollywoodiana do que prática. Os soviéticos, por sua vez, tentaram lançar uma fina camada de óleo sobre o mar no caminho do furacão, mas os resultados nunca foram revelados.

"Quando você realiza este tipo de super-ultra engenharia, pode acabar criando uma solução que se volta contra você." diz Hugh Willoughby, ex-diretor da Divisão de Pesquisa em Furacões. Afinal, os furacões não são de todo mal. Eles ajudam a Terra a expelir calor dos trópicos, provêem boa parte das chuvas nos EUA durante o verão e ajudam a limpar os poluídos ecosistemas litorâneos. Uma pena que às vezes custem 50 bilhões de dólares, sem falar nas vidas humanas.

"Eu acho que seremos capazes de modificar os furacões algum dia, mas é possível que, devido às incertezas, nós não o desejemos" diz Ross Hoffman, pesquisador atmosférico.

Os Raelianos chegam à Espanha
O Movimento Raeliano é uma organização mundial sem fins lucrativos com mais de 60.000 membros em 87 países. Os Raelianos acreditam que a ciência deve ser livre de restrições éticas impostas pela Igreja Católica e outras organizações conservadoras. Seu líder, o francês Claude Vorhilon, que responde simplesmente por Rael, costuma dizer que "ciência é amor, porque a ciência salva vidas". Interessante, não?

Não exatamente. Rael também acredita que a humanidade foi criada por seres de outros planetas e que sua missão é pavimentar o caminho para o futuro contato destes seres com a humanidade. Comparando-se a Martin Luther King, Nelson Mandela e Dalai Lama, Rael propaga sua palavra de paz, amor e Design Inteligente. Design Inteligente? Sim, aí está um defensor do DI que os criacionistas não querem ter do seu lado: "Tudo que o papa é contra, eu apoio" diz Rael.

Este mês Rael chegou à Espanha para o que chama de "Seminário do Despertar". Uma repórter da TV Mundo espanhola, apelidada de May, acompanhou, disfarçada e com uma câmera escondida, o evento, que parece ser mais sensual do que a maioria dos encontros ufológicos/científicos. Já na entrada o participante recebe um bracelete com uma cor de acordo com sua disposição sexual. "Se você está a fim de qualquer tipo de experiência, você recebe um bracelete verde, ou um vermelho se você está a procura de um parceiro estável." diz May. Além disso Rael está sempre cercado de seus "anjos", um grupo de 40 lindas e jovens mulheres, que juraram protegê-lo com suas próprias vidas, revela May. Após as lições de filosofia há uma série de jogos e danças eróticas onde homens se vestem de mulheres e vice-versa. Sobre estes jogos e o que acontece em outras salas May não entra em detalhes. Uma pena.

Rael defende a idéia de que o retorno dos nossos criadores extraterrestres é iminente, mas que isso não vai acontecer até que ele tenha construído a embaixada Raeliana em Jerusalem. Dos 60 milhões necessários para a empreitada, Rael só levantou 10 até o momento. Bem, isso explica os 400 euros que um raeliano deve desembolsar para ingressar no movimento e os 10% sobre os ganhos mensais cobrados pela organização sem fins lucrativos.

Barcelona Reporter

Sucesso de audiência, não de ciência
Quem assiste a série CSI (qualquer uma delas) certamente já viu esta cena típica: uma impressão digital é recolhida no local do crime e levada para um computador, que faz a busca em um banco de dados da polícia. Em segundos, aparece a resposta na tela, indicando que a impressão foi identificada. Simples e rápido.



Mas na vida real não é bem assim...Impressões digitais são usadas por forças policiais de todo o mundo há mais de um século e são uma ferramenta básica na investigação de crimes. Mas uma polêmica vem crescendo nos Estados Unidos - a identificação de uma pessoa por sua impressão digital é realmente confiável?

Impressões digitais são realmente únicas, cada pessoa tem a sua. Até aí, não há discussão. Mas o processo de comparação entre uma impressão recolhida no local de um crime e uma imagem armazenada em um banco de dados não é perfeito. A impressão recolhida pode ser apenas parcial, pode estar borrada ou pode estar distorcida, por não ter sido depositada em uma superfície perfeitamente plana. Qual a margem de erro envolvida no processo? Por incrível que pareça, isto nunca estudado adequadamente.

Casos recentes mostram que o método tem suas falhas. Uma impressão digital recolhida no local dos ataques terroristas em Madri, ano passado, foi identificada por três especialistas do FBI e um consultor externo como sendo de Brandon Mayfield, um advogado americano da cidade de Portland. Na verdade, a impressão era de um argelino. Outro caso foi o de Stephan Cowans, que passou seis anos preso por atirar em um policial em Massachusetts. Condenado a partir das impressões digitais, Cowans foi libertado após sua inocência ser provada por uma análise de DNA.

Fica claro que a afirmação do Departamento de Justiça americano, de que a análise de impressões digitais tem "margem de erro zero", não é verdade. Alguns estudos recentes indicam que a margem de erro é bastante significativa. Ainda não existe um consenso, mas diferentes pesquisadores, analisando vários conjuntos de registros de identificação, encontraram taxas de erro desde 0,034% até 4,4%. Esta última corresponde a 44 erros encontrados em 1000 identificações realizadas.

É claro que em uma investigação bem feita, a identificação pelas impressões digitais é somente uma parte do processo. Ainda assim, é uma parte que precisa ser mais bem investigada.

New Scientist

Fabricando assombrações sintéticas
Se você estiver na Inglaterra nos próximos meses, pode ajudar a ciência a estudar as assombrações. O pesquisador inglês Usman Haque está procurando voluntários para participar de um projeto onde tenta criar artificialmente o que chama de "espaço assombrado".

Ele e seu colaborador, Chris French, criaram uma câmara onde podem controlar ou produzir umidade, temperatura, infrasons (sons abaixo da frequência captada pelo homem) e campos eletromagnéticos, estímulos usualmente associados a locais que as pessoas descrevem como assombrados.

"A intenção de nosso projeto não é explicar o fenômeno das casas assombradas, nem desmistificar a sabedoria popular com respeito ao sobrenatural. Em vez disso queremos demonstrar como as percepções do espaço e dos objetos são intrisicamente afetadas por coisas das quais não estamos imediatamente conscientes", disse o pesquisador na página do projeto.

BoingBoing

Assombrações em New Orleans
O outrora famoso vudu de New Orleans, combinado com a destruição provocada pelo Katrina, que deixou a cidade deserta e em escombros com corpos por toda a parte, vêm fazendo estragos nos nervos dos soldados americanos responsáveis pelo patrulhamento e resgate da área. O Sgt. Robin Hairston, por exemplo, diz ter visto uma criança em uma porta ao acordar, que desapareceu logo em seguida. Outro membro da Guarda Nacional disse ter ouvido as risadas de uma garotinha quando abriu a porta de uma sala de suprimentos vazia.

Interessante como estas assombrações lembram os clichês dos últimos filmes de terror: o uso de crianças para provocar medo. Culpem o cinema asiático..

Neste link você assiste o vídeo do noticiário da CBS.

Evolucionismo x Criacionismo - A hora da verdade
Criacionistas têm pressionado os sistemas educacionais de vários estados americanos para que seu dogma religioso da criação, disfarçado sob o nome politicamente correto de "design inteligente", seja ensinado como se fosse ciência.

Agora a briga chega a um tribunal americano. Em um contra-ataque pró-evolução, pais de alunos de distrito de Dover, na Pensilvânia, entraram na justiça contra o ensino do criacionismo, apoiados pela American Civil Liberties Union.

Nesta segunda, começa o julgamento - é legal ensinar o criacionismo em escolas públicas americanas? Defensores dos dois lados nos Estados Unidos esperam ansiosos o resultado...e é claro, nós também.

Live Science

Rapidinhas
Cura pelo telefone
Os terapeutas alternativos se modernizaram enfim. Um médico paquistanês diz que pode tratar seus pacientes e curá-los pelo telefone celular. Samad Musafir afirma que estudou diversos conhecimentos paranormais até dominar o que chama de "força Samda". Esta força, diz Musafir, pode ser transmitida de uma pessoa saudável para uma pessoa doente através do telefone. Eis uma técnica que não receberá o título de "milenar" tão cedo.

O que Darwin diria?
Em uma época em que a teoria da evolução é atacada de todos os lados por pseudocientistas que não a entendem (ou fingem que não entendem), é interessante encontrar a seguinte notícia no jornal O Globo, de 20 de setembro: "Promotor pede habeas-corpus para chimpanzé - O promotor Eron Santana, da área de meio ambiente na Bahia, entrou ontem com um pedido de habeas-corpus em favor de um chimpanzé. Ele argumenta que os chimpanzés são parentes próximos do homem, com 99,6% de genes humanos: 'A ciência já provou que os chimpanzés têm capacidade de raciocínio tal qual o homem, portanto, trata-se de uma pessoa que não pode permanecer enjaulada'..."

Por essa nem Darwin esperava...


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