Projeto Ockham

N° 6 • 01 Mai 05

Fusão nuclear de volta
Toda vez que um cientista fala em "fusão nuclear", calafrios percorrem as espinhas de seus colegas, que lembram o imenso fiasco protagonizado por Stanley Pons e Martin Fleischmann em 1989. Mas ela está de volta em um estudo apresentado por pesquisadores da Universidade da California, que dizem ter conseguido obter uma reação de fusão nuclear pelo simples aquecimento de um cristal de tantalato de lítio em uma atmosfera de deutério gasoso (a própria descrição já parece retirada de um episódio de Jornada nas Estrelas).

Obter uma reação de fusão nuclear em si não é um desafio. Isto é feito regularmente em aceleradores de partículas e (felizmente) menos freqüentemente em bombas atômicas. A dificuldade está em fazer com que a reação ocorra de forma controlada e produzindo mais energia do que a que foi consumida, requisitos para que a fusão possa ser usada como uma fantástica fonte de energia. A equipe americana não chegou lá, mas seu estudo pode gerar aplicações interessantes, se seus resultados forem confirmados. A reação de fusão emite raios-X, por exemplo, e um dispositivo baseado neste experimento poderia ser usado como um equipamento de raios-X portátil. Esticando um pouco mais a imaginação, outra aplicação viria do fato de que núcleos de deutério são acelerados a altíssimas velocidades dentro do cristal (como um minúsculo acelerador de partículas) e a ejeção destes núcleos poderia ser usada como propulsão em micromotores para naves espaciais. O Capitão Kirk e o Dr. McCoy ficariam orgulhosos...

New Scientist

O primeiro reator nuclear
A palavra "nuclear" é provavelmente a mais estigmatizada de todo o vocabulário científico. Hiroshima, Chernobyl, Goiânia - exemplos negativos dos efeitos do uso da energia nuclear foram determinantes na visão do público em geral sobre o assunto, bem como forneceram vasta munição para aqueles que gostam de discorrer sobre os males da tecnologia moderna.

O que certamente poucos sabem é que o primeiro reator nuclear da história entrou em funcionamento muito antes que o primeiro humano cruzasse as savanas africanas. Não, não estamos falando de alienígenas e seus supostos feitos na pré-história - mesmo os defensores dessas teorias fantásticas não costumam atribuir aos alienígenas nada muito mais complicado que empilhar grandes pedras em forma de pirâmide. Por incrível que pareça, o primeiro reator nuclear da história foi montado pela própria Mãe Natureza.

O urânio é um dos elementos que podem ser usados como combustível nuclear e ocorre na natureza como uma mistura de duas formas (isótopos) - urânio-235 (a forma capaz de sofrer fissão nuclear) e uranio-238. Em uma reação de fissão nuclear, um átomo de urânio se fragmenta, emitindo nêutrons capazes de atingir outros átomos de urânio, causando sua fragmentação e a emissão de mais nêutrons, que atingem outros átomos de urânio... e assim por diante - a chamada reação em cadeia. Mas para que isso ocorra, é necessário que exista uma determinada concentração de urânio-235 (se a quantidade do material for muito pequena, a maior parte dos nêutrons não atingirá outros átomos de urânio). Além disso, os nêutrons são emitidos a uma velocidade alta demais para interagir com o átomo de urânio seguinte, de forma que esta velocidade precisa ser diminuída pelo que os cientistas chamam de moderador.

Em geral, a proporção natural de urânio-235 é muito baixa, mas cientistas descobriram que há aproximadamente dois bilhões de anos, a concentração de urânio-235 na região de Oklo, no Gabão, era alta o suficiente para iniciar uma reação nuclear natural. Acredita-se que a água tenha funcionado como moderador, de forma que o reator "ligava" e "desligava" periodicamente - a presença de água na forma líquida permitia que a reação em cadeia ocorresse ("ligando" o reator), mas a reação causava um aumento na temperatura, vaporizando a água e interrompendo a reação. Segundo os cálculos dos cientistas, o reator funcionava por meia hora e desligava por duas horas e meia, e pode ter mantido esse ciclo de funcionamento por 150 mil anos, a uma potência estimada de 100kW.

Os reatores naturais de Oklo são intensamente estudados por cientistas interessados no armazenamento de rejeitos nucleares, uma vez que os produtos radioativos gerados pelas reações nucleares que ali ocorreram continuam contidos pelas formações rochosas do local, mesmo após dois bilhões de anos. Considerando a preocupação intensa (em alguns casos, quase fanática) de nossa sociedade com o impacto do lixo nuclear na natureza (um problema supostamente insolúvel), não deixa de ser interessante saber que a natureza já resolveu esse problema há muito tempo.

New Scientist
Oklo Fossil Reactors

A China continua tentando ver a Muralha do espaço
O Projeto Ockham já abordou o mito de que a Grande Muralha da China seria o único objeto, construído pelo homem, visível do espaço. Que ela não é o único, já ficou mais do que estabelecido, sendo discutível se ela é visível ou não - a altitudes onde ela dificilmente pode ser vista, existem inúmeras outras construções claramente visíveis. Agora os chineses se esforçam para provar que ela realmente pode ser vista do espaço.

O jornal China Daily publicou uma foto tirada por um astronauta chinês, em missão na Estação Espacial Internacional, onde a muralha seria visível. A dificuldade em se ver a muralha é tanta que ela teve que ser marcada em laranja na foto, contra um fundo de montanhas cinzas onde é difícil distinguir qualquer coisa, e o próprio astronauta expressou dúvidas sobre o que ele tinha fotografado.

O principal problema é que a questão não é geográfica, e sim política. Está em jogo o orgulho nacional da China, depositado no grande feito de sua antiga civilização - conseguir há milhares de anos construir uma obra tão imponente e superior às "concorrentes" de outras civilizações. Que a Grande Muralha da China é um feito admirável, não há dúvida, independente de ser vista do espaço ou não. Mas depois que os chineses fizeram sua campanha de "marketing" em cima disso, pega mal admitir que era propaganda enganosa.

Folha Online

A verdadeira Máquina de Ler Mentes
Cientistas japoneses e americanos criaram uma máquina que permite revelar os pensamentos de uma pessoa.

Calma, não é bem assim. O que os cientistas fizeram foi mapear a atividade de certas regiões do cérebro enquanto voluntários realizavam testes de percepção. Através dos padrões observados, diferentes em cada pessoa, diga-se de passagem, os cientistas conseguiram antecipar em qual dos objetos os voluntários estavam focando sua atenção.

Apesar de bem menos espetacular do que as máquinas similares encontradas na ficção científica e certamente muito menos espalhafatosa do que a máquina de leitura da mente que veio do futuro, vendida no ebay (veja ao lado), o método abre interessantes possibilidades. Cientistas dizem que o método poderia ser usado para antecipar o movimento de alguém, determinar o foco de sua atenção ou descobrir se uma pessoa em coma possui consciência do que se passa ao seu redor.

New Scientist

Gerador de Trabalhos Científicos Aleatórios
Você precisa submeter um trabalho a um congresso de computação e não teve tempo de preparar um? Você nem sequer sabe alguma coisa sobre computação para escrever um trabalho? SCI-Gen é a solução. Este programa open source permite gerar automaticamente resumos para trabalhos da área de computação, completos com figuras, gráficos e citações; tudo aleatório. O resultado final pode ser algo como "Rooter: A Methodology for the Typical Unification of Access Points and Redundancy" ou "The Influence of Probabilistic Methodologies on Networking".

O programa criado por três alunos do MIT poderia ser apenas uma engraçada zombaria com os jargões impenetráveis que infestam a ciência, não fosse o fato de que um dos trabalhos gerados pelo SCI-Gen foi de fato aceito por um respeitável congresso de informática (WMSCI 2005). Com isso, a brincadeira se situa no centro da atual controvérsia sobre o método científico: a validade do processo de revisão pelos pares (peer-review), a impostura intelectual e o excesso de jargão técnico.

Esta discussão não é nova, mas ganhou as principais manchetes quando em 1996 Allan Sokal publicou o hoje anedótico artigo "Transgressing the Boundaries: Toward a Transformative Hermeneutics of Quantum Gravity" na revista Social Text. Escrito como uma paródia, cheio de contradições, trechos non senses e invenções sem cabimento, o artigo passou por vários revisores antes de ser impresso na conceituada revista.

Apesar de ter sido aceito na categoria de "não revisado", o trabalho gerado pelo SCI-Gen, mostra que alguns trabalhos podem ser aceitos sem nem mesmo serem lidos. Exceto é claro, os artigos de Sokal, que agora devem ser exaustivamente revisados...

Rapidinhas
Elvis em má companhia
Tupac Shakur, o rapper assassinado em 1996, acaba de entrar para o restrito clube dos cantores que mesmo depois de mortos e enterrados continuam dando as caras por aí. Um boato, que corre a internet na forma de uma falsa página da CNN, dá conta de que Tupac teria sido visto em um shopping center de Beverly Hills, fazendo compras e dando entrevistas ao lado de ex-colegas. Segundo a falsa reportagem, Tupac teria assumido o nome de Jamal Millwood e se refugiado na cidade colombiana de Cali, de onde continua a produzir seus discos. Infelizmente a matéria não dá o paradeiro atual de Elvis, nem de Jim Morrisson.

Relação arriscada
Qual a sua estratégia para conquistar as mulheres? Um jantar romântico à luz de velas ou dirigir ensandecido a 160 km/h? Flores no aniversário dela ou uma boa briga com a gangue rival? Bem, talvez seus esforços estejam acertando o sexo errado. Uma pesquisa publicada na revista Evolution and Human Behavior (vol 26, p 171) mostra que comportamentos exibicionistas arriscados só impressionam outros homens. Mulheres preferem mesmo os homens cautelosos. Mas neste terreno as coisas nunca são tão simples; mulheres também são atraídas por homens que tenham uma posição de liderança entre seus colegas e esta posição de liderança, costumam pensar os mais jovens, é conquistada assumindo riscos desnecessários. Então, caro Pitboy Don Juan, boa sorte.

Sonegando o Imposto de Renda
Um time de sociologistas acaba de concluir aquilo que todo mundo já sabia. Que uma pessoa tende a sonegar o imposto de renda se acredita que todos estão fazendo o mesmo. O artigo, intitulado "But Everybody does it... : The Effects of Perceptions, Moral Pressures and Informal Sanctions On Tax Cheating", foi publicado na revista Sociological Spectrum. Sugerimos aos pesquisadores estudar o efeito sobre os contribuintes da crença de que o dinheiro arrecadado será mal gasto ou desviado antes de chegar ao seu destino.



Vende-se Máquina de Ler Mentes
Não há tempo a perder. Falta pouco menos de uma semana para que o leilão de uma exclusiva Máquina de Ler Mentes se encerre. Alguém da Califórnia diz que encontrou a máquina escondida sob a casa, bem ao lado de uma Máquina de Viagem no Tempo e uma Máquina de Encolher. Todos os artefatos pertenceriam, segundo o vendedor, a um certo prof. Strauss, um viajante do tempo que em 2282 teria voltado ao ano de 1900. Todos os itens, mais uma pintura que se diz ser o auto-retrato do Prof Strauss, estão a venda. Infelizmente o vendedor não faz idéia de como os aparelhos funcionam, então não pode garantir que eles estão em perfeito estado. Ahh...

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Pipoca com Ciência

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