Projeto Ockham

N° 2 • 06 Mar 05

Desinformando o público: o câncer e o sutiã
No ano passado, o jornal O Globo lançou uma revista de variedades em sua edição dominical. Fato raro no jornalismo brasileiro, a revista mantém duas seções regulares sobre ciência ("Ciência e Vida", com um artigo longo, e "Eureka", com notas curtas), merecendo um crédito positivo por isso.

Mas a matéria de capa da edição de 20 de fevereiro revelou que a qualidade do jornalismo científico desta revista não é tão alta quanto parecia. Com o título "Sutiã eleva o risco de câncer?", a reportagem apresenta uma suposta polêmica causada por um estudo realizado por uma dupla de pesquisadores americanos, Sydney Ross Singer e sua mulher, Soma Grismaijer. Segundo eles, o uso do sutiã elevaria significativamente o risco de uma mulher desenvolver câncer de mama e a incidência de câncer de mama em mulheres que não usam sutiã seria tão baixa quanto em homens. Razão suficiente para que todas as mulheres queimem seus sutiãs... se isso não fosse um clássico exemplo de pseudociência, ou seja, ciência de mentirinha.

Dressed to KillEm primeiro lugar, não há polêmica alguma. Lendo a matéria, você terá a impressão de que esta é uma teoria recente, sendo ativamente debatida. Não é. A teoria de Singer, descrita no livro "Dressed to Kill: the link between breast cancer and bras", foi lançada em 1995 e não teve absolutamente nenhuma repercussão na comunidade médica. Uma simples pesquisa no banco de dados Medline, a principal referência para estudos médicos, não revela nenhum estudo abordando este assunto, nem mesmo de autoria destes supostos pesquisadores. Isto porque Singer nunca publicou seu "revolucionário" estudo em nenhuma revista científica, onde ele poderia ser analisado e criticado por outros cientistas. Como é comum entre pseudocientistas, Singer publicou suas teorias fantásticas (existem outras) apenas em livros destinados ao público leigo, onde a falta de conhecimentos específicos sobre os assuntos em questão é garantia de destaque e retorno financeiro. Prova de que essa estratégia funciona foi a atenção dada a este mito pelos jornalistas do Globo, em detrimento da multidão de estudos científicos sérios sobre o assunto.

Em dado ponto da matéria, é dito que Singer e sua esposa fazem campanhas nos EUA e no Canadá incentivando o abandono do sutiã, seguido pela revelação de que o Canadá conseguiu reduzir em 23% a incidência de câncer de mama desde 1986. Desta forma, o texto deixa a clara impressão de que o sucesso canadense tem algo a ver com a idéia de Singer. Mais uma vez, nem perto da verdade. Se os autores do texto tivessem tido o trabalho de entrar no site da Sociedade Canadense do Câncer (www.cancer.ca), eles teriam lido o seguinte, na seção de mitos sobre o câncer: "Neste momento, não existe nenhuma evidência científica confiável que mostre uma ligação entre o uso do sutiã e o desenvolvimento de câncer de mama. Se estudos corretamente planejados e revisados forem realizados sobre este assunto, a Sociedade Canadense do Câncer revisará a pesquisa e seus resultados." Ou seja, talvez algum dia uma pesquisa realmente científica acabe descobrindo uma relação entre sutiãs e o câncer de mama, mas por enquanto isto é apenas uma jogada de marketing para ajudar Singer e a mulher a vender livros.

Não durma na horizontal
Mas espere um pouco... a matéria diz que Singer é Ph.D. em Bioquímica e Antropologia, com especialização em "medicina humana" (existe outra medicina?). Com certeza, isto é um currículo respeitável... ou seria, se fosse verdade. De acordo com o próprio Singer, que informa sua biografia no site do "Instituto para o Estudo de Doenças Culturogênicas" [o "centro de pesquisas" fundado por Singer e a mulher], podemos ler que ele realmente estudou dois anos no programa de pós-graduação em Antropologia da Universidade de Duke e mais dois no programa de Bioquímica, mas recebeu apenas o diploma de mestrado. Depois disso, ele estudou um ano no programa de "medical humanities" na Universidade do Texas – o que pode ser a origem do estranho termo "medicina humana" encontrado no texto – e recebeu mais dois anos de treinamento médico não especificado. Ou seja, Singer realmente tem alguma formação científica, mas não tão impressionante quanto o texto indica. E, ao contrário do que a descrição apresentada pelos jornalistas do Globo pode sugerir, ele não tem nenhuma associação com essas universidades. A única instituição "acadêmica" com a qual Singer está associado é o seu próprio instituto, cuja equipe de pesquisadores se limita a Singer e esposa.

Independente do currículo de Singer, o mérito de suas teorias deve ser analisado imparcialmente. O problema é que para que outros cientistas possam fazer isso ele deveria apresentá-las, junto com os dados a partir dos quais tira suas conclusões, em publicações ou conferências científicas. Já que isso não acontece, devemos todos acreditar na palavra de Singer (como fizeram os jornalistas responsáveis pelo texto)? Será que Singer pelo menos tem alguma pesquisa coerente que lhe dê algum crédito? Bem, julgue você mesmo.

No site de seu instituto, Singer defende, por exemplo, que o hábito de dormir na horizontal causa edema cerebral crônico, podendo levar a enxaquecas, glaucoma e apnéia do sono. Outras condições supostamente evitáveis por simples mudanças de hábito incluem, segundo Singer, o mal de Alzheimer, impotência, diverticulite, pedras nos rins, infecções urinárias, síndrome pré-menstrual, derrames, aumento do tamanho da próstata, os inconvenientes da menopausa, displasia cervical e Sids (Sudden Infant Death Syndrome - morte súbita infantil). Mais uma vez, todo este suposto e revolucionário conhecimento não foi digno de um único artigo científico.

Apelação gratuita
Aliás, a temática de mercado está bastante presente no site. Se você não estiver satisfeito em gastar seu dinheiro comprando os quatro livros de Singer, ele lhe dá a opção de fazer doações para ajudar a financiar seus estudos. Mais uma vez, vemos um comportamento típico de pseudocientistas – cientistas buscam recursos em instituições de fomento que têm o inconveniente hábito de avaliar rigorosamente as pesquisas propostas antes de financiá-las, bem como os resultados obtidos pelos estudos contemplados. Mesmo que você opte por doar 10 mil dólares à instituição de Singer (esta é uma das opções disponíveis, que o qualificará como "santo"...), não espere receber um relatório técnico com os resultados da pesquisa (também não adianta visitá-la – a instituição não tem endereço, apenas uma caixa postal). Ainda mais que o "Self-Study Center" (outro nome da instituição de Singer) é "projetado para ajudar o doador a realizar sua própria pesquisa pessoal, em si mesmo. Estes são chamados Self Studies. Eles são seguros e sem custos, e seus resultados são auto-evidentes e dramáticos". Mas se esses estudos não têm custos...

O pior de tudo é que esta apelação gratuita a um mito como forma de chamar a atenção do leitor era totalmente desnecessária. Quando não está espalhando boatos sem fundamento, a matéria da Revista do Globo traz boas informações sobre o câncer de mama, um assunto importante o suficiente para não precisar deste tipo de artifício. Mais grave ainda, este é um assunto em que a informação correta é fundamental para a prevenção e diagnóstico precoce. Numa sociedade em que a maioria tem acesso limitado à informação, a última coisa de que precisamos é que um dos principais jornais do país espalhe a desinformação.

Publicado originalmente no Observatório da Imprensa

Exorcismo

Universidade oferece curso de Exorcismo
Uma universidade do Vaticano abriu em fevereiro o primeiro curso de extensão em Exorcismo.

A iniciativa é uma resposta ao que a Igreja Católica considera como um preocupante aumento do interesse pelo satanismo entre os italianos, especialmente os jovens. Oficiais da Igreja estimam que existem mais de 650 organizações satanistas somente na Itália e que mais de 500.000 mil italianos já tiveram contato com alguma delas. A notícia vem no momento em que um grupo de pessoas está sendo julgado na Itália sob a acusação de assassinar três adolescentes em um ritual satânico. "Nos últimos anos tem havido um crescente interesse pelo satanismo devido à mídia. Para os jovens o interesse pelo satanismo pode começar com um CD e depois passar para a Internet. Daí, algumas vezes evolui para coisas aparentemente inofensivas como passeios em cemitérios, mas algumas vezes pode levar a assassinatos." diz o padre Carlo Climati, um dos professores do curso.

Se o Diabo parece ter atualizado seus métodos de persuação, as técnicas para reconhecê-lo e combatê-lo não mudaram muito desde 1614, quando o primeiro manual de exorcismo foi publicado. Foi somente em 1999 que a Igreja Católica atualizou seus rituais, recomendando aos padres cautela no diagnóstico da possessão demoníaca. Agora, com o curso, os exorcistas modernos esperam conhecer melhor as artimanhas do inimigo e aprender a reconhecer os sinais de possessão, diferenciando-os daqueles das doenças psicológicas. Sem dúvida a iniciativa é bem vinda, especialmente pelos doentes mentais que não mais correrão o risco de serem tratados apenas com orações em latim e borrifos de água benta.

O valor do curso é de 180 euros e tem duração de dois meses. Para maiores informações sobre o programa e a carga horária do curso visite o site da UPRA.

Telegraph

Comer carne é fundamental para o crescimento
Os pais que pretendem extender suas convicções vegetarianas aos filhos pequenos devem repensar sua decisão. Um recente estudo científico mostrou que a carne é fundamental na dieta infantil. Sem ela as crianças se desenvolvem menos, crescem mais fracos e menos inteligentes.

O estudo foi conduzido durante dois anos no Quênia. A um grupo de 544 crianças foi dada uma ração de aproximadamente 60 gramas de carne todos os dias, em complemento à sua alimentação diária. Outro grupo recebeu como complemento um copo de leite e o equivalente energético da carne em um óleo vegetal. Depois de dois anos as crianças alimentadas com carne ganharam em média 50% mais massa muscular que as crianças alimentadas com leite e obtiveram melhores resultados em testes de inteligência e questões de álgebra. "O grupo que recebeu o complemento de carne era mais ativo no playground, mais falante e mostrou mais habilidade de liderança" diz a pesquisadora Lindsay Allen, da Universidade da Califórnia, que conduziu a pesquisa. Na verdade o resultado do estudo foi tão drástico que Allen acrescenta: "Não há absolutamente nenhuma dúvida de que é anti-ético para pais fazer com com que seus filhos tornem-se exclusivamente vegetarianos."

Nature

Termina a saga dos Hobbits
Não, não estamos falando daquele filme. Estamos falando da novela real do paleontólogo indonésio que, bem... guardou com extremo cuidado em seu cofre e não deixou que ninguém mais visse, os fósseis de criaturas de cerca de um metro de altura encontrados por seus colegas no ano passado. Teuku Jacob, da Universidade de Gadjah Mada, finalmente devolveu os restos do Homo floresiensis aos seus descobridores.

Agora outros cientistas vão poder estudar a descoberta e concluir se o Homo florensiensis é realmente uma espécie extinta ou, como defende Teuku Jacob, apenas um homem moderno com uma deformidade cerebral conhecida por microcefalia.

smh

Cadastre seu email para receber nosso boletim:
Pipoca com Ciência

Dragão da Garagem