Projeto Ockham

N° 1 • 20 Fev 05

Lançamento do Radar Ockham
Há mais de dois anos no ar, já estava na hora do Projeto Ockham dar uma remodelada em seu visual. Aproveitando essa deixa, partimos para um projeto que estávamos cozinhando há algum tempo: um boletim periódico com textos mais curtos que os publicados no site e que servisse como "aperitivo" para os leitores, entre uma atualização e outra. Este boletim será enviado para os leitores cadastrados (além de estar disponível no site), mas torcemos para que ele seja considerado interessante o suficiente para ser repassado a (muitos) outros leitores em potencial.

Além disso, o Projeto Ockham agora pode acessado em um novo endereço. Além do tradicional www.projetoockham.org, a grafia alternativa www.projetooccam.org também lhe traz ao nosso site.

Equipe do Projeto Ockham

Desafio ufológico
Céticos costumam acusar os ufólogos de não possuírem nenhuma evidência da existência de discos voadores além de fotos toscas, testemunhos suspeitíssimos e montes de teorias de conspiração. Os ufólogos sempre responderam que céticos seriam incapazes de acreditar em discos voadores mesmo que um deles aterrissasse em sua sala de estar. No último mês de setembro a disputa esteve a ponto de ser definida.

Tudo começou quando, depois de uma longa troca de mensagens acaloradas, o fundador e editor da revista UFO, fundador e presidente do Centro Brasileiro para Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV), Ademar Gevaerd desafiou Kentaro Mori, notório representante da comunidade cética nacional e fundador do site Ceticismo Aberto, a provar que UFOs não existem. Em vez de argumentar que tentar provar que algo não existe poderia ocupar alguém pelo resto da eternidade (se a moda pega, a próxima tarefa seria provar que não existem Klingons ou Vogons), Mori aceitou o desafio, esperando que as regras do desafio fossem fixadas pelo desafiante, e convidou o psicólogo Wellington Zangari, do grupo de estudos InterPsi da PUC de São Paulo, para mediar a contenda.

Acertados os termos do desafio, ambas as partes concordaram que Gevaerd deveria apresentar o mais consistente caso ufológico já ocorrido no Brasil para apreciação de um grupo de cinco cientistas de renomadas universidades brasileiras. Os cientistas, escolhidos por suas credibilidade e isenção, examinariam a documentação e atestariam se o fênomeno UFO pode ser considerado real com base nas evidências apresentadas.

Infelizmente, somente alguns dias depois de aceitar o desafio nas bases propostas, Gevaerd simplesmente desisitiu de todo o caso. "Não me sinto na obrigação de oferecer provas de que os UFOs existem a quem quer que seja", disse Gevaerd em sua mensagem de desistência, acrescentando: "Meu desafio não é para ser levado a sério". Carlos Reis, ombudsman da revista UFO, que segundo Gevaerd o teria desencorajado a ir em frente, foi mais incisivo: "Não podemos afirmar em sã consciência que [o fênomeno de natureza desconhecida com que lidamos] seja extraterrestre, nem podemos falar em "alienígenas", pois são apenas suposições, teorias, hipóteses, elocubrações". Ficou no ar a esquisita sensação de que Carlos Reis acabou por concluir nada mais nada menos do que aquilo que os céticos sempre disseram.

É difícil saber quem mais perdeu com o episódio. Os ufólogos sérios viram escorrer pelo ralo uma bela oportunidade de ver suas investigações apreciadas pela comunidade científica brasileira, o que sem dúvida teria dado projeção internacional à ufologia nacional. Já o editor da revista UFO fazendo que ia quando vinha e bravateando para todos os lados perdeu credibilidade junto aos seus leitores e terminou por fornecer aos críticos da ufologia farta munição na recorrente acusação de que falta ciência à ufologia. No mais, tudo permaneceu como antes.

A proposta de avaliação InterPsi, aceita por ambas as partes:

A mensagem de Wellington Zangari, InterPsi, comentando e acompanhada da mensagem de desistência de Ademar Gevaerd

Mensagem de Kentaro Mori encerrando o episódio:

Médium detetive vira seriado de televisão
Sucesso de audiência nos EUA e no Brasil, a série CSI (em três sabores: Las Vegas, Miami e New York) mostra o trabalho de uma equipe de peritos forenses que utiliza as mais modernas técnicas da ciência para desvendar seus casos. "As evidências nunca mentem", repete sempre o protagonista do seriado. Nos Estados Unidos, um programa com a mesma temática mas com métodos de investigação um tanto diferentes vem ganhando a disputa pela audiência de CSI: o seriado Medium.

Lançado em janeiro pela rede NBC, Medium é apresentada como uma "excitante série dramática baseada na história real da médium Allison Dubois". Patricia Arquete ("Stigmata") interpreta uma estudante de direito que descobre possuir uma gama de poderes de fazer inveja a qualquer médium profissional, como as capacidades de ler mentes, prever o futuro e enxergar espíritos. Opondo-se contra o ceticismo do marido, um cientista espacial, Dubois ajuda a polícia a desvendar crimes misteriosos.

De acordo com o site do programa, Allison Dubois já serviu de consultora para a polícia em diversos casos de homicídios e desaparecimentos. No entanto segundo Benjamin Radford, um dos editores da revista Skeptical Inquirer, que se deu ao trabalho de checar a informação, todos os departamentos policiais citados pelo site do programa negaram ter utilizado os serviços de Dubois ou de qualquer outro médium. Isso não quer dizer que a polícia não receba comumente a ajuda voluntária de médiuns em busca de notoriedade. Em grandes casos a polícia recebe centenas, às vezes milhares de dicas mediúnicas. Só que a realidade costuma ser um bocado diferente da ficção. Dicas mediúnicas são, via de regra, vagas e imprecisas como: "ela está próxima de uma grande massa d'água" (mar, lago, piscina, caixa d'água?!) ou baseadas no que a imprensa já sabe, o que as fazem nada úteis.

É interessante imaginar o que vai acontecer quando Medium for lançado no Brasil. Em um país onde médiuns falecidos possuem a popularidade de santos e programas de exorcismo vão ao ar todas as noites na televisão, provavelmente os laboratórios cromados e limpíssimos de CSI e as técnicas high-tech sempre à mão de seus peritos vão parecer mais fantásticos e improváveis do que os talentos sobrenaturais de Allison Dubois.

Live Science

Hobbit encontrado desaparece novamente
No ano passado o mundo da paleontologia foi balançado. Com um timing quase perfeito, uma equipe de paleontologistas indonésios e australianos encontrou os fosséis de uma extinta espécie humana de apenas um metro de altura. A nova espécie foi denominada Homo Floresiensis mas ganhou as manchetes como Hobbits.

O problema é que desde então ninguém mais viu os tais Hobbits. O professor indonésio Teuku Jacob, que não fazia parte da equipe descobridora, mas que teve acesso à descoberta por seus colegas indonésios, trancou os restos das criaturas em seu cofre e vem se recusando a deixar que outros cientistas os estudem. Diante da insistência dos paleontólogos australianos, Jacob vem adiando sucessivamente o prazo para devolver a descoberta aos descobridores, em uma novela que já se arrasta há meses.

Colegas de Jacob dizem que não é a primeira vez que ele "é extremamente cuidadoso ao estudar fósseis, permitindo que pouquíssimas pessoas os vejam". Os cientistas também tem os seus eufemismos...

The Age

Pensar Vol.2 N° 1
Pensar

Foi lançada a primeira Pensar de 2005. Para quem não conhece, é a única revista cética da América Latina, com contribuições regulares de autores brasileiros. Confira no site www.pensar.org as máterias deste número (incluindo um texto de um dos integrantes do Projeto Ockham..:-))

Morre Ernst Mayr
No dia 3 de fevereiro, o mundo científico perdeu um de seus grandes expoentes. Aos 100 anos de idade, Ernst Mayr, um dos mais destacados biólogos evolucionistas da história, continuava lúcido e produtivo, um exemplo raro de disposição e saúde intelectual.

Mayr foi um dos cientistas responsáveis pela chamada "Síntese Moderna" da teoria da evolução - a união dos conceitos propostos inicialmente por Charles Darwin com uma série de conhecimentos adquiridos no século XX (entre eles, a genética). Sim, ao contrário do criacionismo, a teoria da evolução evoluiu muito desde sua primeira formulação por Darwin.

Em um país no qual o criacionismo é defendido até pela governadora de um de seus principais estados, onde seu ensino é incentivado em escolas públicas, Mayr deveria ter recebido muito mais que as discretas notas publicadas em poucos jornais.

Observatório da Imprensa

Mulheres são de Vênus, homens são de Marte
Há alguns temas em ciência que, devido aos seus desdobramentos sociais, são tratados pelos cientistas com especial delicadeza e corretude política. Um deles é como a diferença congênita entre sexos e etnias influencia o comportamento humano. Há algumas semanas o presidente da Universidade de Harvard, Lawrence H. Summers tocou em um destes temas e, como geralmente acontece nestes casos, obteve furiosa acolhida. Ao ventilar a hipótese, durante seu discurso em uma conferência que tratava sobre as minorias na ciência, de que diferenças inatas entre os sexos poderiam explicar porque há menos mulheres nas ciências exatas e na matemática, Summers despertou indignados comentários de ambos os sexos na comunidade científica.

Mas há realmente diferenças inatas entre os cérebros de homens e mulheres? Novos estudos sugerem que sim. O cérebro é formado por dois tipos de tecido chamados de massa cinzenta e massa branca. Um estudo publicado recentemente na revista NeuroImage afirma que os homens possuem mais massa cinzenta do que as mulheres, enquanto elas possuem mais massa branca. Como os dois tipos de tecido estão associados a diferentes maneiras de processar a informação, este resultado pode explicar porque homens e mulheres apresentam excelência em diferentes tipos de tarefa, como a aptidão para matemática nos homens e a habilidade verbal nas mulheres, afirma o co-autor do estudo, Rex Young. O autor, Richard Haier, psicólogo da Universidade da Califórnia, cautelosamente acrescenta que isto não significa que um dos sexos é mais inteligente que outro, como comprovam os resultados iguais que homens e mulheres obtém em testes cognitivos, apenas sinaliza que eles pensam sim, de forma diferente.

Estudos deste tipo têm sido possíveis porque atualmente existe um maior clima de tolerância sobre o assunto. "Quando eu era criança dizer que havia diferenças de ordem sexual no cerébro era algo que simplesmente não se devia fazer" diz Jill Goldstein, professora de Psiquiatria da Escola de Medicina de Harvard. "Penso que vivemos em um época onde podemos olhar para algumas destas diferenças sem dizer que elas são necessariamente determinísticas." Os críticos do presidente de Harvard, a quem ele se desculpou posteriormente, talvez não concordem.

ABC News

A cura através da fé
O "efeito placebo" é bem conhecido dos médicos. É quando o paciente toma uma droga inócua, como uma pílula de açucar, sem saber e sente os mesmos efeitos da droga real. O termo foi criado pelo Dr. Henry Beecher quando percebeu que podia aliviar a dor de soldados feridos substituindo a morfina, que havia acabado, por uma injeção salina.

Agora cientistas americanos de Escola de Medicina da Universidade de Oregon investigam o que chamam de "efeito da expectativa", ou seja, como a confiança no tratamento pode levar o paciente a se sentir melhor. Da mesma maneira que o efeito placebo, o efeito da expectativa é baseado na fé do paciente mas é considerado mais amplo do que este: "Nós não estamos falando sobre a interação entre o médico e o paciente, o que para algumas pessoas é considerado como parte do efeito placebo. Estamos pensando de fato sobre as esperanças e expectativas que as pessoas tem de que vão se sentir melhor" diz o Dr. Barry Oken, diretor do Centro de Medicina Alternativa e Complementar para Doenças Neurológicas de Oregon.

Oregon Live

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Pipoca com Ciência

Dragão da Garagem